Luiz Antônio Lourenço de Farias, mais conhecido como Tomba. Um dos novatos na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte promete esquentar as discussões na Casa e não deve poupar palavras para defender suas posições. Representante do PSB, o parlamentar fará parte da bancada de oposição e já mandou o recado para a governadora Rosalba Ciarlini (DEM). "Ela precisa começar a trabalhar". O político de personalidade forte é estreante no Legislativo, mas já atuou no Executivo durante oito anos. Tomba teve dois mandatos consecutivos como prefeito do município de Santa Cruz e, agora, pretende aplicar os conhecimentos adquiridos em suas gestões ao primeiro mandato como deputado estadual. Em entrevista ao Diário de Natal, o pessebista falou dos conflitos com os próprios membros de sua legenda, alegando que se sente excluído. Tomba também comentou o processo de escolha da Mesa Diretora da Casa. "Foi arrogância".
O senhor esteve à frente da prefeitura do município de Santa Cruz por dois mandatos consecutivos. Como você avalia esse momento da sua carreira política?
Fizemos uma administração voltada para todos e o pessoal do município diz que existe uma Santa Cruz antes e depois de Tomba. Sempre tive um sonho de ser prefeito, mas montei uma construtora e comecei a ter sucesso nesse setor e deixei esse sonho adormecido. Mas eu sempre fui muito ligado a Iberê (Ferreira de Souza) e fui coordenador de várias campanhas dele. No entanto, o candidato que ele apoiava perdeu duas eleições e, num certo dia, ficamos sabendo que a população demonstrava um certo interesse em votar em mim, caso eu saísse candidato a prefeito. Mas eu estava muito bem com os meus negócios e disse que não queria. No entanto ele insistiu, eu resolvi lançar minha candidatura e as pesquisas começaram a apontar vantagens para o meu nome, com relação aos adversários. À medida que as pesquisas eram divulgadas, as intenções de voto iam crescendo. Isso foi em1999. Fiz um plano de governo audacioso e muita gente disse que se eu realizasse a metade do que estava nesse plano, eu seria o melhor prefeito de todos os tempos. E eu consegui fazer tudo que estava proposto e mais, nos quatro anos de gestão. Peguei uma cidade acabada e comecei tudo do zero. Depois disso, o meu grande desafio era o segundo mandato, pois as pessoas achavam que eu iria me acomodar. Eu trabalhava, às vezes, 24 horas, mas estava querendo fazer uma mudança na cidade. Sou o primeiro prefeito reeleito na história de Santa Cruz.
De que maneira essa experiência no Executivo vai contribuir para sua atuação no Legislativo?
É uma mudança muito grande. Eu me preocupo muito porque tenho um perfil de atuação para o Executivo. Eu vibrava com as conquistas do município e por isso tenho que me preparar para essa nova maneira de atuar. Não posso decepcionar as pessoas que votaram em mim em todo o Rio Grande do Norte. Vou estudar assuntos relacionados a orçamento para poder ajudar. Já existem alguns projetosque pretendo apresentar, como o dos aviários. Santa Cruz é o maior produtor de aves do RN. Temos 50 aviários no município, que produzem mais de um milhão de aves dentro de um ciclo de 50 dias. Pretendo levar esse projeto à Casa para que essa produção possa se expandir por todo o estado.
Quais serão as bandeiras levantadas pelo senhor durante seu mandato como deputado estadual? Em que setores você pretende imprimir sua marca?
Acho que em três ou quatro áreas. A saúde é uma das coisas que mais me angustiam. Quero ajudar as pessoas que necessitam da minha ajuda. Às vezes o estado não tem como socorrer um paciente que precisa de um atendimento imediato e eu vou ajudar. Se eu, como político, não puder contribuir para que essas pessoas tenham acesso a um tratamento de saúde, que é um direito delas, eu vou servir em que momento? Como prefeito, eu vi muitas pessoas perderem uma perna, um braço, no Hospital Walfredo Gurgel sem ter acesso a um acompanhamento, um tratamento de qualidade. Tudo isso por falta de um governo que desse a estrutura. Vou trabalhar para que a Saúde tenha qualidade. Também vou ajudar no que for preciso na segurança. O turismo também será minha grande bandeira. Esse é um dos setores mais importantes do estado. Nós construímos a maior estátua religiosa do mundo e, hoje, o município e outras cidades da região têm presenciados inúmeros avanços. Com a crescente quantidade de visitantes, Santa Cruz recebeu hotéis, restaurantes, lanchonetes. Consegui unir o útil ao agradável, juntando a fé do povo aos progressos que a estátua trouxe para a região. No último ano tivemos a construção de 240 leitos.
Segundo o Ministério Público Federal, o senhor lidera a lista de gestores mais denunciados por improbidade administrativa. O senhor teme que isso atrapalhe sua carreira política?
Eu não respondo a nenhuma ação dessa natureza. Todas as ações contra mim foram arquivadas, inclusive saiu isso no Diário Oficial de domingo. Não há nada que mande eu devolver dinheiro. Todas as minhas obras foram aprovadas pelo Ministério Público e foi feita a prestação de contas. O juiz diz em sua decisão que não há, em momento algum, erro do gestor. Eu fiz três dispensas de licitação, Micarla já fez 18. Isso é permitido. Quem quiser ver o relatório do Tribunal de Contas da União é só me pedir. Já viram chutar cachorro morto? Ninguém apresenta denúncia contra quem está apagado. Mas como eu estava fazendo uma gestão bem sucedida, caíram em cima. Eu construí uma história de vida com meu trabalho e está aí para quem quiser ver. Tudo que tem na minha cidade fui eu quem construí. Fui eleito deputado com trabalho. Vou fazer meu pronunciamento na Assembleia sobre isso, mas vou mostrar documentos comprovando.
O senhor é integrante da bancada de oposição ao governo do estado na Assembleia. Como serão seus posicionamentos?
Vou ser oposição com responsabilidade e vou votar ao lado dos meus posicionamentos, do que manda meu coração. A minha votação será a favor das classes de educadores, médicos, entre outras que precisam. Mas não vou votar afavor de algo que o governo não tenha condições de assumir. Vou fazer uma oposição séria, com os pés no chão, voltada para aquelas pessoas que acreditaram em mim. Minha presença será marcante nessa Casa. Ninguém vai ver minha cadeira vazia, a não ser por afastamento de saúde ou viagens para tratar de coisas referentes ao mandato.
Com as derrotas de Wilma de Faria para o Senador e Iberê Ferreira de Souza para o governo do estado, o PSB perdeu espaços importantes no cenário político do RN. Que avaliação o senhor faz desse momento vivido pelo partido?
Isso não deixa de mexer com o partido. O PSB, em nível nacional, vive seu melhor momento. Elegeu seis governadores de estado, com destaque para o presidente nacional do partido, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. O Rio Grande do Norte foi o único em que perdeu. Acho que está na hora dos ex-governadores Wilma de Faria, que é presidente do PSB, e Iberê Ferreira repensarem o projeto do partido. O PSB não pode ser apenas um partido familiar. Há tempo paraisso, perdemos apenas uma eleição e temos condições de dar a volta por cima. Mas passei por alguns momentos difíceis dentro do partido. Nunca fui chamado para nenhuma reunião, apenas para definir a base da Assembleia. Mas tenho muita vontade de trabalhar. Gosto muito do que eu faço.
Quando o novo governo assumiu, foram feitas muitas críticas à administração do PSB. E os membros do partido pouco se manifestaram a respeito. O que o senhor acha disso?
Acho que a governadora Rosalba Ciarlini precisa começar a trabalhar para cumprir as metas do governo. Vamos aguardar, dar o tempo necessário para ela começar a apresentar resultados. Mas nós vamos cobrar. Não vou abrir mão de cobrar os quatro hospitais que ela prometeu, nas zonas administrativas da cidade. São coisas que ela prometeu, desenhou, mostrou na televisão as maquetes e é preciso que a gente esteja atento. A governadora questionou o empréstimo que o estado fez com o Tribunal de Justiça. No entanto, ela pediu para prorrogar o que ela considerava ilegal. Como ela prorroga a ilegalidade? O dinheiro do estado é um só e o governo não tem dono. Apenas muda de gestor. Essas contas apresentadas não são só dos governos de Wilma e Iberê. Tem coisas ainda das gestões anteriores. Discordo desses valores apresentados. O FPM de janeiro teve um aumento de R$ 80 milhões nas três parcelas. Foi um reajuste de 29% com relação ao mesmo mês de 2010. Mas ninguém comentou isso.
A eleição da Mesa Diretora da Assembleia foi polêmica. Alguns deputados novatos declararam que se sentiram excluídos do processo. Você se sentiu assim?
Não aprovei a forma como esse processo foi encaminhado. Com relação ao PSB, tive um primeiro encontro com Gustavo Carvalho, num almoço e sugeri que os quatro membros do partido na Casa se juntassem e defendessem o apoio em bloco a Ricardo (Motta) para presidência. Mas eles preferiram que essa conversa com Ricardo fosse individual. Eu me senti em desvantagem, já que era o único novato. Encontrei-me com os demais novatos e eles me convidaram para formar um bloco e lançar apoio ao presidente. Chegou a ter seis pessoas, mas Hermano (Morais) e Gustavo (Fernandes) acabaram ficando com o PMDB. Depois de declarar o apoio a Ricardo, o PSB me chamou e disse que seria manifestado o apoio em bloco do PSB. Mas eu játinha um compromisso com os novatos e não iria voltar atrás. De qualquer maneira, disse que eles podiam colocar meu nome como membro do PSB. Mas eles só colocaram os três e me excluíram. Gustavo Carvalho também deu entrevista dizendo que eu não falava em nome do partido e que eu era isolado, que a vaga de primeiro secretário seria dele. Respeitei. Mas esse processo, de maneira geral, foi mal conduzido. O deputado Henrique Alves (PMDB) se meteu na história. Claro que ele como presidente do partido tem direito de opinar, mas ficou parecendo uma coisa imposta. Na verdade, foi arrogância.
O senhor acha que esse tumulto inicial vai interferir nos trabalhos da Casa?
Não creio. Vamos colaborar. Mas espero que essa Casa possa ser dos deputados. Faço um apelo para que os parlamentares que já estão aqui não excluam os novatos, pois todos eles já foram novatos um dia. A maior novata no Brasil é a presidente da República, Dilma Rousseff. Porque eu, que milito na política há 20 anos, vou receber outro tratamento? Mas vamos criar o diálogo.
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